O sucesso nos Innovation Awards da London Packaging Week 2025 foi mais do que uma simples prova de conceito para a PA Consulting, a PulPac e a Diageo. Demonstrou o verdadeiro potencial das embalagens para bebidas à base de fibra.
Durante muitos anos, este material tem sido utilizado em sacos, caixas e cartões, estando agora a ser explorado para garrafas. As embalagens à base de fibra são, há muito, consideradas essenciais para o futuro da indústria da embalagem: trata-se de um material amplamente disponível, altamente reciclável e facilmente regenerável.
No entanto, a natureza porosa e a tendência higroscópica das fibras têm limitado a utilização do papel sobretudo a embalagens secundárias (como caixas de cosméticos ou de cereais) e terciárias (embalagens prontas para prateleira ou transporte).
Até agora.
Com consumidores cada vez mais exigentes em relação a opções de embalagem sustentáveis* e com as marcas a necessitarem de responder, a cadeia de valor tem vindo a trabalhar intensamente para tornar as embalagens à base de papel viáveis para um leque mais alargado de aplicações.
O avanço ficou evidente nos Innovation Awards da London Packaging Week, onde a PA Consulting, a PulPac e a Diageo foram distinguidas na categoria de Inovação em Embalagem Sustentável pelo seu trabalho contínuo no desenvolvimento de uma embalagem para bebidas em papel, totalmente reciclável e com menor pegada de carbono.
Apostar nas garrafas de fibra
As garrafas são uma das áreas onde os ganhos potenciais podem ser mais significativos. Quando produzidas em vidro, são intensivas em energia, pesadas no transporte e armazenamento e, por vezes, menos práticas no manuseamento.
O vidro tem, naturalmente, vantagens claras: é totalmente reciclável e pode ser reutilizado várias vezes sem perda de qualidade ou pureza. Existem também esforços contínuos para reduzir o seu peso. Ainda assim, o papel é o material de embalagem mais reciclado na Europa. Os sistemas de recolha bem estabelecidos e os hábitos dos consumidores fazem com que as taxas de recolha de embalagens à base de papel sejam consistentemente elevadas.
Se for possível tornar o papel adequado para líquidos, isso poderá representar um avanço significativo rumo a uma embalagem mais sustentável e circular.
É aqui que entram a PulPac e a PA Consulting. Em 2023, ambas lançaram o Bottle Collective, do qual a Diageo é membro fundador. Um dos objetivos desta iniciativa é criar uma alternativa em fibra às garrafas, contribuindo para reduzir o uso de plástico de utilização única nos setores alimentar, de bebidas, saúde e grande consumo.
O projeto assenta na tecnologia Dry Molded Fiber da PulPac, que utiliza pasta e celulose de origem renovável para produzir embalagens de elevado desempenho e baixo custo. O processo patenteado emite menos dióxido de carbono do que o plástico e as soluções convencionais de moldação húmida, usando praticamente nenhuma água na produção.
Embora ainda seja necessário um revestimento plástico fino, este não está colado à fibra, facilitando a separação durante a reciclagem e permitindo a compatibilidade com praticamente todos os processos mecânicos. Em alguns casos, essa separação pode ocorrer até na recolha urbana, devido à pressão exercida pelos veículos. Ainda assim, os sistemas de recolha e triagem variam consoante a região, e a infraestrutura não está totalmente preparada em todos os mercados, uma questão que o coletivo procura resolver.
Escala, colaboração e viabilidade
Anthony (Tony) Perrotta, especialista em sustentabilidade e economia regenerativa na PA Consulting, considera que a criação do Bottle Collective foi essencial para ultrapassar barreiras no desenvolvimento de garrafas em papel com potencial de escala.
“Ganhos de sustentabilidade que não possam ser industrializados em volumes significativos não satisfazem nem marcas nem reguladores”, afirma. “Por isso, a escalabilidade comercial é um fator central desde o início.”
A PA Consulting investiu diretamente no projeto, financiando uma fase inicial que permitiu reduzir riscos, desenvolver protótipos e reunir dados que convenceram grandes marcas, como a Diageo, da viabilidade desta solução. “Nenhum cliente, por mais estratégico que seja, assumiria sozinho um projeto desta dimensão. Mas ao repartir o investimento por vários parceiros, torna-se viável.”
A colaboração estendeu-se também a empresas responsáveis pelas linhas de produção e enchimento, como a Logoplaste e a Krones, integradas como parceiras tecnológicas. O objetivo imediato é garantir que a primeira linha de produção consiga atingir até 20 milhões de garrafas por ano, criando a base necessária para futura expansão.
Testes reais e validação no mercado
Para a Diageo, esta colaboração resultou num teste com consumidores em condições reais, utilizando uma garrafa de papel de 70 cl, composta por 90% de fibra, para o whisky Johnnie Walker Black Label. A solução é cerca de 60% mais leve do que o vidro e apresenta quase metade das emissões de CO₂ equivalente.
Apesar disso, o papel é naturalmente menos resistente do que o vidro, tornando estes testes essenciais. Além disso, para um produto premium como o Johnnie Walker, não basta a estética ou a sustentabilidade: a embalagem tem de garantir a integridade do produto e cumprir requisitos legais rigorosos.
Foram realizados testes extensivos para assegurar que não existiam perdas de álcool que pudessem alterar o teor da bebida. Paralelamente, os especialistas em sabor da Diageo acompanharam todo o processo para garantir que não havia qualquer impacto no perfil do produto. “A garrafa em fibra teve de passar os mesmos testes sensoriais exigentes que qualquer nova embalagem em vidro e passou”, sublinha Tony.
Um novo caminho para a indústria
Num setor que enfrenta múltiplos desafios, Tony acredita que este projeto poderá acelerar a adoção de soluções em papel. A experiência demonstrou que estas embalagens podem transmitir uma sensação de qualidade e luxo, algo anteriormente considerado difícil com materiais fibrosos. “Não só contrariámos essa ideia, como em alguns casos acrescentámos elementos de luxo que antes não existiam.”
Segundo Tony, a embalagem está a atravessar um momento de transformação profunda. “A fibra lidera a corrida aos materiais alternativos. As marcas que apostarem na experimentação e mostrarem progresso terão vantagem na definição dos padrões futuros.”
Ainda assim, deixa um alerta: “Para serem adotados em larga escala, os novos materiais não podem comprometer o produto nem a experiência do consumidor. Esse equilíbrio ainda está em construção.”
Os próximos passos
O prémio atribuído à garrafa em fibra moldada para o Johnnie Walker Black Label nos Innovation Awards 2025 confirmou o projeto como uma das iniciativas mais inovadoras, criativas e sustentáveis do último ano.
Com as candidaturas para os Innovation Awards da London Packaging Week 2026 abertas até 24 de abril, as empresas com projetos inovadores são incentivadas a participar numa das 23 categorias.
Como resume Jamie Stone, especialista em design e sustentabilidade da PA Consulting: “Inovar leva tempo e colaboração. Ter grandes marcas a apoiar esta tecnologia é fundamental. Os prémios são um sinal de que estamos no caminho certo, passo a passo.”
Outras informações e candidaturas estão disponíveis em: https://www.londonpackagingweek.com/innovation-awards/