Num momento em que a indústria gráfica enfrenta desafios claros de competitividade, internacionalização e dimensão, reuniram-se, em Ílhavo, mais de cem profissionais, para o Encontro APIGRAF 2026, organizado pela Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas, de Embalagem e de Comunicação Digital. O setor encontrou-se para discutir o presente e, sobretudo, para organizar o futuro.
Na abertura, o presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Rui Dias, deixou uma leitura clara sobre o papel do setor no território. «Muitos de vós desenvolvem a vossa atividade longe das grandes cidades, mas constroem riqueza, promovem inovação, geram emprego e coesão social», afirmou, sublinhando a relevância de uma indústria frequentemente invisível para o grande público.
Numa intervenção com forte marca territorial, acrescentou ainda: «Temos de fazer as coisas juntos: poder local, conhecimento e tecido empresarial», apontando para a necessidade de articulação entre agentes como condição para o desenvolvimento sustentável.
Rui Dias (Presidente da Câmara Municipal de Ílhavo)
Mas foi a intervenção de José Manuel Lopes de Castro que marcou o tom do Encontro APIGRAF 2026. Num discurso direto, começou por enquadrar o setor num contexto global instável, onde a incerteza deixou de ser exceção para passar a regra: «Estamos, mais uma vez, a viver tempos de incerteza… e a verdade é que ninguém sabe quando é que estes conflitos acabam.»
A partir daí, o presidente da APIGRAF desceu ao terreno concreto das empresas. Falou de escala, da dificuldade em competir em mercados internacionais e de uma produtividade que continua aquém da média europeia. «Se nos compararmos com Espanha, andamos na ordem dos 60% a 65%. É dramático, mas é verdade», alertou.
Ainda assim, o discurso não se fixou no diagnóstico. Pelo contrário, apontou prioridades claras, com destaque para a inteligência artificial, entendida como eixo incontornável da transformação industrial: «A inteligência artificial não é uma moda passageira. É uma transformação estrutural que já está em todo o lado. É uma transformação estrutural que já está a mudar a forma como produzimos, comunicamos e gerimos as empresas.»
Contudo, diz, a tecnologia, por si só, não resolve o problema. Lopes de Castro insistiu numa ideia que atravessou toda a sua intervenção: a necessidade de qualificação. «O que está a faltar não são proibições, o que está a faltar é formação para os empresários, para os trabalhadores, para os jovens.»
No plano internacional, destacou também o acordo entre a União Europeia e o Mercosul como uma oportunidade relevante para o setor, ainda que exigente. Ao referir um mercado potencial de centenas de milhões de consumidores, sublinhou que «vai permitir reduzir e eliminar tarifas de cerca de 90% dos produtos», incluindo os da indústria gráfica, abrindo portas a uma maior internacionalização.
Lopes de Castro (Presidente da APIGRAF)
No entanto, deixou um aviso claro: sem escala, as empresas portuguesas terão dificuldade em tirar pleno partido deste novo enquadramento. «As nossas empresas, individualmente, não têm dimensão para encarar estes mercados», afirmou, reforçando a urgência de pensar o setor de forma mais integrada e competitiva.
Num equilíbrio entre inovação e tradição, houve também espaço para defender o papel do impresso, particularmente no contexto da educação e da literacia, recusando leituras simplistas sobre a substituição total pelo digital. A mensagem foi clara: o futuro não é uma escolha binária, mas uma gestão inteligente de equilíbrios.
Já na reta final, o presidente da APIGRAF regressou à essência do encontro e, em certa medida, do próprio setor. «O nosso mercado é pequeno demais para vivermos isolados. Temos de colaborar, temos de cooperar», afirmou, reforçando a importância do networking e da confiança entre empresas.
O programa do Encontro APIGRAF 2026 refletiu essa diversidade de preocupações e oportunidades, cruzando temas como geopolítica, inteligência artificial, design, literacia e materialidade do papel, com momentos de debate, partilha e experimentação prática. Entre os destaques estiveram as intervenções de keynote speakers, mesas-redondas especializadas e dinâmicas colaborativas pensadas para estimular o networking entre participantes. A presença de diferentes perfis - da indústria à academia, passando pelo design e pela comunicação - reforçou a natureza transversal do setor.
A revista Packaging, como Media Partner oficial, acompanhou o encontro.