O papel pode desempenhar um papel relevante no combate à poluição causada pelas embalagens plásticas flexíveis, surgindo como alternativa para reduzir o impacto ambiental deste tipo de resíduos.

Ainda assim, a Ellen MacArthur Foundation alerta que as soluções em papel podem oferecer poucos ou nenhuns benefícios se não forem cuidadosamente desenhadas e obtidas de forma responsável.  A conclusão é de um novo relatório divulgado a 10 de março de 2026 pela Ellen MacArthur Foundation.

O documento foi apoiado por 47 empresas, organizações não-governamentais, investidores e académicos, que defendem a aceleração da inovação para desenvolver e expandir soluções de embalagens flexíveis em papel concebidas de forma responsável.

As embalagens flexíveis, como saquetas, invólucros e bolsas, são atualmente o tipo de embalagem plástica com crescimento mais rápido a nível mundial. Em países com sistemas formais de recolha e reciclagem pouco desenvolvidos, representam uma das principais fontes de poluição, correspondendo a cerca de 80% das embalagens plásticas que acabam nos oceanos.

O relatório, intitulado Paper-Based Flexible Packaging – The role it could play in tackling small-format flexible plastic pollution in markets with high leakage rates, destaca que as alternativas em papel podem ser mais facilmente concebidas para serem recicláveis e biodegradáveis.

Em mercados onde existe uma elevada probabilidade de estas embalagens acabarem no ambiente, esta característica permitiria que fossem recicladas quando existirem sistemas adequados de recolha e reciclagem, ao mesmo tempo que reduz a poluição persistente por plástico caso escapem para a natureza.

Para evitar que a substituição do plástico origine novos problemas, como a desflorestação, o relatório define seis critérios considerados essenciais. Entre eles, destaca-se a necessidade de garantir matérias-primas provenientes de fontes responsáveis, processos de produção com menor impacto no clima e nos recursos hídricos e soluções que respondam às exigências técnicas, económicas e dos consumidores.

As embalagens devem ainda ser recicláveis a nível local, evitar químicos perigosos e integrar-se numa estratégia mais ampla de economia circular socialmente inclusiva.

Sander Defruyt, responsável pela estratégia para plásticos da Ellen MacArthur Foundation, diz: “a poluição causada pelas embalagens plásticas flexíveis é um desafio sistémico, com cerca de 20 biliões de unidades estimadas a entrarem nos oceanos nos próximos 15 anos”.

O responsável acrescenta que “não existe uma solução única, pelo que incluir alternativas em papel alarga o conjunto de soluções disponíveis, complementando outras prioridades, como as embalagens reutilizáveis”.

Apesar de reconhecer que existem inovações promissoras, o relatório sublinha que as soluções baseadas em papel ainda não existem à escala, ao custo ou com o desempenho necessários para uma adoção generalizada.

Por isso, a Fundação apela a empresas e decisores políticos para acelerarem o desenvolvimento destas alternativas e criarem salvaguardas que orientem a sua utilização responsável.

Pablo Costa, Global Head of Packaging, Digital & Transformation da Unilever, diz: “as embalagens flexíveis em papel de nova geração são uma área prioritária para a empresa e para toda a indústria”.

O responsável acrescenta que “o relatório é claro quanto ao papel que o papel poderá desempenhar e ao que será necessário para desenvolver soluções desejáveis para os consumidores, melhores para o ambiente e viáveis para as empresas”.

Já Gaurav Goel, professor no Indian Institute of Technology Delhi, considera que “este relatório estabelece uma base inicial sobre os desafios e as condições críticas necessárias para transformar a promessa das embalagens flexíveis em papel numa realidade escalável”.

Segundo o académico, o documento “reforça a necessidade de combinar escolhas criteriosas de materiais e inovação tecnológica com colaboração entre diferentes setores e avaliação baseada em dados, para desenvolver soluções que protejam o produto e o planeta”.

A organização internacional dedicada à promoção da economia circular sublinha ainda que as embalagens de papel representam apenas uma parte da solução. A prioridade continua a ser reduzir a dependência de embalagens flexíveis de pequeno formato, independentemente do material, por exemplo através da expansão de modelos de reutilização.

Este tipo de embalagens plásticas, amplamente utilizado em produtos do dia a dia como snacks, champô, café ou leite, é identificado como uma das três principais barreiras sistémicas na 2030 Plastics Agenda for Business da Fundação.