A quantidade de embalagens provenientes da recolha seletiva enviadas para reciclagem em Portugal aumentou apenas 1% nos primeiros nove meses de 2026, apesar de o financiamento das operações de recolha e triagem ter crescido 5,9%.
A Sociedade Ponto Verde (SPV) questiona a eficácia dos investimentos realizados e defende maior transparência na aplicação dos recursos.
Entre janeiro e setembro, foram encaminhadas para reciclagem 373.182 toneladas de embalagens recolhidas nos ecopontos, mais 4.194 toneladas do que no período homólogo de 2025. No mesmo intervalo, as entidades gestoras financiaram as operações de recolha seletiva e triagem com mais 9,2 milhões de euros, através dos chamados Valores de Contrapartida.
Este reforço sucede ao aumento de 90 milhões de euros registado em 2025, face a 2024. De acordo com as estimativas da SPV, considerando a execução prevista para este ano, o investimento acumulado no sistema entre 2024 e 2026 terá quase duplicado.
Os valores de contrapartida são pagos pelas entidades gestoras aos sistemas municipais, multimunicipais e concessionários responsáveis pela recolha seletiva e triagem de resíduos de embalagens. O financiamento destina-se a suportar estas operações e a melhorar a capacidade de resposta do sistema.
“Estamos a investir cada vez mais num sistema que continua a apresentar resultados manifestamente insuficientes. Um crescimento de apenas 1% nas quantidades retomadas, obriga-nos a questionar a eficácia do investimento realizado. Importa lembrar que este financiamento tem origem nas contribuições das empresas clientes da SPV e das restantes entidades gestoras, que enfrentam também um contexto económico exigente. Num momento em que o sistema está mais financiado do que nunca, não podemos continuar a aumentar os encargos das empresas sem garantir uma melhoria efetiva do serviço e resultados concretos na reciclagem de embalagens. É fundamental perceber onde estão os constrangimentos, como estão a ser aplicados os recursos e que mudanças concretas vão permitir inverter esta trajetória”.
Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde
Papel e cartão crescem, mas plástico e alumínio recuam
A análise dos resultados por material revela comportamentos distintos nos primeiros nove meses do ano. O papel e cartão registaram um crescimento de 4%, enquanto as embalagens de cartão para alimentos líquidos (ECAL) aumentaram 3%. Ambos os segmentos apresentaram uma evolução positiva face aos resultados do primeiro semestre. O vidro cresceu apenas 1%, mantendo uma evolução praticamente estagnada.
Já as embalagens de plástico apresentaram uma redução global de 4%, embora existam diferenças significativas entre materiais. O filme plástico, utilizado em sacos e embalagens flexíveis, registou um aumento de 10%, enquanto o polietileno de alta densidade (PEAD), utilizado em embalagens de detergentes e produtos de higiene, cresceu 4%.
Em sentido contrário, o PET, utilizado nomeadamente em garrafas de bebidas, apresentou uma quebra de 2%. A SPV assinala igualmente uma redução na categoria de outras embalagens de plástico, que inclui embalagens de snacks, iogurtes e frutos secos.
O alumínio registou também uma evolução negativa, com uma diminuição de 5%.
Evolução da reciclagem por material | janeiro a setembro de 2026

Portugal continua abaixo das metas de reciclagem
O desempenho registado até setembro mantém a preocupação quanto ao cumprimento dos objetivos nacionais e europeus de reciclagem de embalagens.
Em 2025, Portugal registou uma taxa de retoma de 60,5%, abaixo da meta de 65% estabelecida para esse ano. A evolução dos primeiros nove meses de 2026 indica que persistem dificuldades em aumentar as quantidades de resíduos de embalagens encaminhados para reciclagem.
Perante estes resultados, a Sociedade Ponto Verde defende uma avaliação mais rigorosa do funcionamento do sistema, incluindo a criação de mecanismos que permitam acompanhar a aplicação dos financiamentos e medir os resultados obtidos.
Entre as propostas apresentadas está a criação de um Observatório Nacional de Resíduos, apoiado num registo único e numa base de dados comum, que permita reunir indicadores comparáveis sobre recolha, triagem e reciclagem.
A entidade considera igualmente necessário investir em soluções operacionais, como ecopontos equipados com sensores, sistemas de recolha porta a porta e modelos de tarifação pay as you throw, nos quais o pagamento está associado à quantidade de resíduos produzidos.
A SPV refere ter investido, ao longo dos seus 30 anos de atividade, um total acumulado de 19,4 milhões de euros em inovação e investigação e desenvolvimento.
A entidade apela ainda ao Governo para acelerar a execução das medidas previstas no programa Terra +, defendendo que os próximos investimentos devem traduzir-se em melhorias mensuráveis na recolha seletiva, na triagem e nas quantidades de embalagens efetivamente encaminhadas para reciclagem.
“Estamos a investir cada vez mais num sistema que continua a apresentar resultados manifestamente insuficientes. Um crescimento de apenas 1% nas quantidades retomadas, obriga-nos a questionar a eficácia do investimento realizado. Importa lembrar que este financiamento tem origem nas contribuições das empresas clientes da SPV e das restantes entidades gestoras, que enfrentam também um contexto económico exigente. Num momento em que o sistema está mais financiado do que nunca, não podemos continuar a aumentar os encargos das empresas sem garantir uma melhoria efetiva do serviço e resultados concretos na reciclagem de embalagens. É fundamental perceber onde estão os constrangimentos, como estão a ser aplicados os recursos e que mudanças concretas vão permitir inverter esta trajetória”.